O sol ainda não havia cruzado o céu de Maracanaú na manhã deste domingo, 6 de março, e o clima nas ruas já era de uma ansiedade que não se via há décadas. Pelas calçadas da Praça da Estação e nas proximidades da Igreja de São José, o assunto era um só: a chance definitiva de "trilhar seu próprio caminho". Após três tentativas frustradas ao longo de trinta anos, o sentimento que transbordava no rosto de cada morador é de que, desta vez, a história seria escrita com tinta indelével.
Desde as primeiras horas, longas filas se formaram nos locais de votação. Não era apenas um dever cívico; para os maracanauenses, esse novo plebiscito representava o resgate de uma identidade. "É o fim de uma espera que vem desde os tempos dos Tenentes Mário e Raimundo Lima", comentava um morador antigo, referindo-se ao movimento pioneiro de 1953.
O clima de união era visível. Jovens do MIDEMA,FAPEMA e CODIM circulavam entre os eleitores com o entusiasmo de quem sabe que a maioridade política está a poucos votos de distância.
Diferente da tensão política de outros tempos, o que se via naquele dia em Maracanaú era uma celebração antecipada. Famílias inteiras vestiram suas melhores roupas para votar. Havia um sentimento de pertencimento que unia o operário do polo industrial ao comerciante do centro. Para muitos, a emancipação não era apenas uma divisão administrativa de Maranguape, mas a promessa de que os impostos gerados aqui se transformassem em escolas e hospitais para os seus próprios filhos.
Se o "Sim" vencesse, como apontavam todas as expectativas nas rodas de conversa, Maracanaú deixaria de ser o "distrito de Maranguape" para se tornar uma das cidades mais promissoras do Ceará. A Lei Estadual nº 10.811 já aguardava no horizonte, mas era o voto de cada cidadão, neste domingo, que estaria carimbando o passaporte para o futuro.
A noite prometia ser longa. No centro da vila, o povo não arredava o pé até que o último voto fosse contado e o grito de "liberdade" pudesse, finalmente, ecoar por todo o Vale do Maracanaú. E veio a vitória do “SIM” !
Nesse segundo plebiscito, no qual a população optou por Maracanaú emancipada, estavam aptos a votar 12.159 eleitores. Votaram 6.740, sendo que 6.291 optaram pelo SIM, 290 pelo NÃO,
63 Brancos e 97 Nulos. Houve um comparecimento recorde para a época, refletindo a mobilização feita pelo MIDEMA. FAPEMA e CODIM e outras lideranças jovens que percorreram o distrito de porta em porta.
A votação de 6 de março de 1983 não foi apenas um ato administrativo, mas uma explosão de euforia popular que encerrou décadas de espera. Os resultados confirmaram o que as ruas já gritavam: Maracanaú queria ser dona de seu próprio destino.
Texto do Prof. Ailton Gomes.
Fotos do Jornal O Povo.


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